Contos Cearenses – A seca de 2012

O dia estava quente, o sol tinindo, afinal, essa é a maior seca dos últimos 30 anos no Ceará. Tava no pingo da mei dia e os mais velhos sentaram na sombra de um juazeiro, começaram a falar sobre a escassez de água. Carlinhos, um menino de nove anos, tava de butuca ligada, botava sentido na conversa, só queria um pé pra se meter, porque o bixin é pior que  pau de lata!

Seu João fazia o maior furdunço, parecia cantiga de grilo, não parava de falar um minuto sequer. A preocupação com a situação do sertanejo deixava todo mundo abilolado.

– Deixe de enxame seu João! – Dizia seu Pedro – Não precisa desse salseiro todo não, no próximo ano vai chover, se Deus quiser!
– Deus te ouça seu Pedro, senão só vai dar pra minha radiola! Esse ano meus bicho e minhas plantação papocaram com linha e nó. Tô mais liso que espinhaço de pão doce. – Disse seu Manoel todo amuado.
– Num é só você não homi – Interrompe seu Antonio – Tamo tudo lascado! Num falta só o dicumê dos bicho não, falta até pros bacurinzin lá de casa, os bixin tão parecendo mais é pau de virar tripa. – Nesse momento, o nordestino forte e corajoso, enche os olhos de lágrimas e engole seco.
– Eita negrada, a coisa tá feia. Fazia tempo que eu num via tanta mazela, a água que ainda resta só serve pra cortar sabão. Minha vontade é de chispar daqui, picar a mula, mas pra onde nois vai? O povo da cidade é tudo chei de nó pelas costa, vê nois e já vão pensando que é tudo ladrão, fica tudo olhando pra nois de revestrés.

Um grande silêncio se fez, não sabiam o que fazer. Ajuda do governo? Alguns tem, mas  não é suficiente. Os animais estavam quase todos mortos, as cacimbas secaram, as cisternas secaram, só o carro pipa os socorria dois ou três dias por semana, muito pouco…

Passaram mais algum tempo conversando miolo de pote e história de trancoso, era uma forma de esquecer momentaneamente, o desespero que dominava suas almas. Seu Antonio, com olhar de peixe morto, olha pro infinito e respira fundo. Aquele foi mais um  dia que nada puderam fazer para combater a miserável vida que estavam levando.

– Eita meu povo! – Grita Seu Manoel de repente – Nois é cearense da gema, sei que tamo apanhando mais que galinha pra largar o choco, mas vamo arribar a cabeça que daqui a pouco começa a chover, Deus num vai deixar nois tudin morrer de fome. Vê se tem cabimento uma coisa dessas…

E mais uma vez, a força interior do sertanejo vence a cruel realidade. O grupo se desfez, cada um tomou seu rumo, o rosto marcado pelo sofrimento e o coração transbordando de esperança, porque até o dia 19 de março, o que não falta ao povo cearense, é a esperança de um bom inverno.

Em tempo: Algumas palavras estão escritas exatamente como são pronunciadas
Jaqueline Aragão Cordeiro

2 Replies to “Contos Cearenses – A seca de 2012”

  1. Oi linda gostei muito do seu texto queria perguntar se eu posso utiliza-lo numa peça na minha escola ao mesmo tempo divulgarei seu site qualquer coisa me avise obg lindas beijus

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