Notas Cronológicas de Canindé – 1877 a 1909

1877 – Houve uma grande seca depois de 32 anos de inverno, o governo socorreu a população criando frentes de trabalhos, construíram nesta cidade o açude Mateus, uma casa para escola e iniciaram as obras da Igreja das Dores. Com recursos do cofre de São Francisco foi iniciada a construção de uma casa para o hospital de caridade.

1878 – A seca continuou e a cidade estava quase despovoada, a fome e a varíola mataram muitas pessoas. O povo, enfurecido contra a má distribuição dos gêneros, tendo a frente José Campos, arrombou e saqueou o armazém dos alimentos.

1879 – Houve um pequeno inverno que deu apenas para criar alguns legumes na serra. Os fazendeiros perderam quase tudo, andava-se léguas pelo sertão canindeense e não se encontrava uma só pessoa. Foi iniciada pelo Ten. João Cordeiro, a obra do mercado da cidade.

1880 – Houve um inverno regular que deu para produzir pasto e legumes suficientes para a manutenção. Tudo progredia admiravelmente, as cabras e ovelhas tinham de 3 a 4 crias em um só parto. O povo começou a retornar para seus lares, repovoando o município e reformando casas e cercados destruídos pelo abandono dos anos anteriores. Apareceu muita caça: preás, avoantes e mel de abelha. Apareceram também muitas cascavéis, numa limpa de roçado se matavam de cem a duzentas, no ventre de uma delas, encontraram 80 filhotes. Nesse ano também, um indivíduo conhecido como “Joaquim Punaré”, foi caçar no lugar Serrinha na companhia de um menino, e lá, matou a criança, assou e comeu com mel. Réu confesso, foi condenado e enviado para a cadeia da capital, onde morreu. Foi concluída a obra do mercado da cidade, iniciada no ano anterior.

1881 – Ótimo inverno, os gêneros alimentícios ficaram baratíssimos.

1882 – Ótimo inverno, muita caça e mel de abelha.

1883 – Ótimo inverno, muita fartura de legumes e pasto. No dia 04 de outubro aconteceu a libertação dos escravos desse município com a presença de uma comissão da “sociedade libertadora cearense”.

1884 – Ótimo inverno. Deram continuidade a obra da Igreja das Dores com recursos do cofre de São Francisco.

1885 – O inverno chegou um pouco tarde mas foi abundante. Apareceram na cidade muitos criminosos, dentre eles “Manoel de Moura” que matou um Cabo da Polícia da cidade. Foi concluída a construção da Igreja das Dores.

1886 – Houve bom inverno. Suicidou-se o Cap. Antonio dos Santos Lessa, chefe político da região. Faleceu o Ten. José Cordeiro da Cruz, chefe político do partido conservador. Visitou a Vila, pela primeira vez, Dom Joaquim José Vieira, 2º Bispo do Ceará.

1887 – Houve bom inverno. Faleceu o Major Simão Barbosa Cordeiro, antigo líder do partido liberal. Houve um desentendimento entre a Confraria de São Francisco e o Juiz de Capelas, Dr. Elpidio de Carvalho.

1888 – Houve seca novamente, morreu muito gado, os que sobraram foram enviados para Quixeramobim e Banabuiú. Os alimentos aumentaram muito de preço. Para fazer reformas no interior da Igreja, quiseram levar a imagem de São Francisco para a Igreja das Dores, a população armada, se opôs a essa transferência, a Confraria de São Francisco foi obrigada a devolver a imagem ao seu lugar original.

1889 – O inverno foi escasso e tardio, mas deu para fazer pasto e algum legume. Para dar emprego ao povo, o Gov. Caio Prado mandou construir o açude do Riacho Sujo e outro na povoação do Canindé. No dia 15 de novembro foi proclama a República no Rio de Janeiro e deposto D. Pedro II. Foi fundado por Antonio Cruz Saldanha e Justiniano de Serpa, o “Clube Republicano”, ideia aceita sem nenhum protesto.

1890 – O inverno foi regular, houve boa pastagem e abundância de legumes. Chegou na Vila, o Juiz de direito Dr. Alfredo Teixeira Mendes, e mais uma vez, a Vila foi tomada por criminosos vindos de fora que fizeram muitas vítimas.

1891 – O inverno foi escasso e houve pouco legume. Foi extinta a comarca de Canindé, ato condenado como fruto de politicagem.

1892 – O inverno foi novamente escasso. A festa de São Francisco foi adiada por causa do aparecimento da varíola trazida pelos romeiros.

1893 – O inverno foi bom. Um indivíduo conhecido como “Foguetão” assassinou um rapaz que veio do Amazonas comprar uma fazenda.

1894 – O inverno foi muito grande causando enormes prejuízos por causa dos rios que levaram a maior parte das plantações e das cercas dos roçados. Apareceram muitas doenças nos animais.

1895 – O inverno foi semelhante ao do ano anterior.

1896 – O inverno foi bom apesar de ter começado um pouco tarde. Joaquim Ferreira Gomes Boticário montou uma farmácia na Vila, contratado pela Confraria de São Francisco.

1897 – O inverno foi semelhante ao do ano anterior. Iniciou-se uma questão entre a Confraria de São Francisco e o Bispo Diocesano.

1898 – Houve uma grande seca que causou a morte de quase todo o gado e até de pessoas, muitos consideraram maior que a de 1877, o governo nada fez para ajudar a população. O gado foi retirado para Quixeramobim e Santa Quitéria, havendo grande prejuízo, de 300 cabeças, restavam apenas 40. O Bispo dissolveu a Confraria de São Francisco e passou a administração dos bens para os Capuchinhos. A emigração para o Pará, Amazonas e Sul foi enorme. Foi concluído a construção do hospital de caridade e do Convento pelos Frades Capuchinhos com recursos do cofre de São Francisco.

1899 – O inverno foi extraordinário causando cheias nos rios que destruía plantações e roçados. Morreu afogado no açude, Frei Abel dos Capuchinhos. Dr Francisco Barbosa Cordeiro assume como juiz de direito e restaura a justiça na comarca, faleceu no dia 26 de janeiro, Antonio Francisco de Magalhães, chefe do partido conservador.

1900 – O inverno foi escasso mas não houve fome por causa das reservas do ano anterior. Apareceu grande quantidade de punarés e preás.

1901 – O inverno foi regular, apareceu um grande número de avoantes, o gado engordou extraordinariamente. Aconteceu o primeiro homicídio durante a festa de São Francisco, Antonio Benedito, vulgo Antonio Aleijado, assassinou Benedito Ferreira com faca, sendo preso em flagrante. Em comemoração a passagem do século XIX para o século XX, foi levantada uma cruz sobre um pedestal na colina onde agora existe a capela do Sagrado Coração de Jesus (Monte).

1902 – O inverno foi escasso. Faleceu no dia 19 de julho o Dr. Francisco Barbosa Cordeiro. Ouviu-se na Vila, grandes estrondos que estremeciam a terra, quebravam vidros e louças das prateleiras, apareceu também uma cinza que parecia uma neblina e ofuscava o sol, esse evento aconteceu, com interrupções, até o ano seguinte.

1903 – O inverno foi escasso, dando apenas para a pastagem. Começou a circular no dia 7 de julho “O Canindé”, primeiro jornal impresso criado por Augusto Rocha, Thomaz Barbosa e Cruz Filho.

1904 – O inverno foi regular. Apareceu a febre amarela que fez muitas vítimas no campo e na cidade. Faleceu no dia 4 de maio o Padre Joaquim Cordeiro da Rocha. Chegou o novo Juiz de direito, Dr. Manoel Peixoto d’Alencar.

1906 – O inverno foi bom mas apareceu uma praga de gafanhotos. Começaram a circular mais dois jornais: “O Ideal” sob a direção de Mozar Pinto e Thomaz Barbosa e “O Sertanejo” sob a direção de Benigno Pereira e Clóvis Pinto.

1907 – Não houve inverno, retiraram o gado para Santa Quitéria e para Quixeramobim. Faleceu no dia 11 de dezembro o Ten. José Joaquim Cordeiro da Cruz. Apareceu o cólera, a influenza e a febre amarela, que causaram muitas mortes e foi baixíssimo o número de romeiros que vieram para a festa de São Francisco.

1908 – Foi mais um ano de seca. Foi inaugurado o telégrafo da Vila no dia 17 de fevereiro. Faleceu no dia 26 de julho o Cel. Antonio Cruz Saldanha. No dia 14 de junho, os irmãos João e Antonio Pereira, juntamente com o sobrinho Manoel Guariba, assassinaram Francisco André, a mando da esposa deste, os assassinos foram condenados a 30 anos de prisão e Guariba foi absolvido.

1909 – O inverno foi regular, apareceu uma peste de lagartas que danificou as plantações. No dia 19 de Agosto, João e Antonio Pereira fugiram da prisão da Vila. Foram assassinados em Pentecoste, os cangaceiros João Alves e seu companheiro Maciel.

Fonte: Notas cronológicas de Canindé – Revista do Instituto do Ceará
Jaqueline Aragão Cordeiro

One Reply to “Notas Cronológicas de Canindé – 1877 a 1909”

  1. Excelente resenha cronológica. Gostaria que a amiga descobrisse alguma coisa sobre José Antonio do Fechado, um vulto que ficou muito conhecido na região de Canindé no final do séc. XIX. O historiador Gustavo Barroso escreveu uma crônica sobre José Antonio, publicada na revista Cruzeiro. Abçs.

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