Anônimos da história – José de Fogo

José Soares de Souza nasceu na fazenda São Francisco, município de Ipu, em 1840. Filho de Félix Souza Soares e Anna Rodrigues de Farias.

Era um menino audaz, sagaz e meio atrevido, tinha a pele rubra, cabelos alourados e pequenos olhos castanho amarelado. Certa vez, na fazenda Evangelina, os vaqueiros abriram a porteira do curral para levar de volta ao campo, um grande lote de cavalos bravos, Zé, que estava sentado num mourão do curral observando atento os animais, salta de repente sobre um potro e o animal dispara furioso como um raio, atravessou o vasto pátio, sumindo no mato. Horas depois, quando já o davam por morto, ele chega cavalgando o dito potro. Saíra agarrando-o pela crina, e volta amarrando-o com um forte e flexível cipó, servindo-lhe de rédea. Essa proeza rendeu-lhe o apelido de “FOGO”, como a expressão que usamos vastamente em nossa cultura “esse menino é fogo!”.

Em 06 de abril de 1865, com apenas 24 anos, alistou-se para lutar na guerra do Paraguai. Em junho de 1865, embarcou como segundo sargento sob o comando do Cel. José Nunes de Mello. Seguiu do Ceará para o Paraguai no 26º batalhão, organizado com voluntários deste estado. O batalhão foi dissolvido em 14 de dezembro de 1867, depois da “Batalha de Viletta”. Passou então Zé do Fogo a fazer parte de outros grupos até o fim da guerra.

O 26º Batalhão de Voluntários foi reorganizado após os últimos combates da campanha das cordilheiras, chefiados pelo Conde D’Eu, com este grupo, chegou ao Rio de Janeiro em 13 de abril de 1870. Por sua bravura incontestável, foi promovido a “Cavalheiro da Ordem da Rosa”, com medalha de mérito militar de campanha nº 5 e com as medalhas da Confederação Argentina e do Uruguai.

O 26º batalhão voltou ao Ceará em 30 de abril de 1870, sob o comando do Cel. Tiburcio de Souza. Desembarcando em Fortaleza, foram recebidos com flores e ovacionados pela população. Em 14 de maio foi dissolvida esta unidade e seus oficiais dispensados do serviço militar. Em Fortaleza, morou na Rua Boa Vista, hoje Floriano Peixoto. Era um homem forte e musculoso, estatura mediana, andar firme, pouca barba e conversador.

Seu espírito aventureito o fez mudar-se para o estado do Pará, onde casou-se pela segunda vez. Foi ajudante de ordens do Governo do Amazonas, onde ainda lutou como chefe em uma revolta que queria a deposição do governo desse estado.

No Governo da República fora encarregado de localizar um grupo de engenheiros perdidos na floresta amazônica. Após grandes dificuldades, que incluíam até luta com indígenas, Zé de Fogo e seu grupo conseguiram localizar os perdidos, que só então souberam da proclamação da república. Afastados da civilização há meses e sem esperança de serem encontrados, o medo tomou conta dos perdidos, ao ponto do engenheiro chefe se submeter a “escravidão” imposta pelo sargento do exército que os acompanhava. O Capitão Fogo notou a inversão de papéis quando o engenheiro buscava lenha para o fogo enquanto o sargento fumava calmamente deitado em sua rede.

Um dia, já voltando com os resgatados, em um acampamento improvisado sob as árvores, o capitão nota o Engenheiro querendo passar por debaixo da rede do sargento, fazia grande esforço se agachando, enquanto o outro fumava calmamente, em nada lhe facilitando a passagem. Veio então o Capitão Fogo, revoltado com aquela situação, cortou-lhe os punhos da rede, derrubando-o no chão, e a partir dali, o sargento seguiu com o grupo como prisioneiro.

Zé do Fogo esteve no Ceará pela última vez em 1894.  Em 1907 foi agraciado, pelo decreto nº 1687 de 13 de agosto, com uma pensão, como veterano da guerra do Paraguai, no posto de Capitão. Faleceu em 1911.

Fonte: Revista do Instituto do Ceará
Jaqueline Aragão Cordeiro

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