Superação

Eram cinco horas da manhã, o sol nascia no horizonte e todos da casa já estavam acordados e de pé. A mulher fazia o café coado no pano, além de ficar mais saboroso, cafeteira é coisa de luxo lá pra quelas bandas. O marido e os dois filhos mais velhos se preparam pra lida diária, para comer, somente uma xícara de café. Seguem para o curral e tiram o leite da vaquinha, que ai servir para a alimentação da família de sete pessoas. Soltam as poucas criações para pastar e vão arar o roçado na esperança de que a chuva chegue logo, e com a graça de Deus, tenha um bom inverno.

As nove horas o sol já está escaldante, rapadura com farinha e água da cabaça é o que tem para merendar. O pai tira o surrado chapéu de palha da cabeça e olha pra cima, nuvens tímidas e solitárias se perdem na imensidão do azul do céu. Abaixa a cabeça pensativo, faz uma prece silenciosa e volta ao trabalho duro de arar a terra manualmente.

E casa a mulher e a filha mais velha, de apenas 13 anos, cuidam dos afazeres domésticos e dos dois filhos menores. Para o almoço, arroz e feijão, somente,

Onze horas os homens chegam para o almoço, lavar o rosto e as mãos é toda a higienização que fazem, pois não tem água suficiente para mais de um banho por dia. Os cinco filhos comem rápido e se arrumam pra ir pra escola. Uma caminhada de dois quilômetros de ida e mais dois de volta sob o sol forte do sertão. Mas não importa, os meninos vão estudar e lá tem merenda!

A volta para casa, já anoitecendo, é cansativa. Para o jantar, apenas pão de milho com leite, mas nesse momento, todos estão descontraídos, sorriem e brincam. O pai e a mãe agradecem a Deus pela saúde e inteligência dos filhos. Eles trabalham ajudando em casa e estudam, os doutores da cidade iriam dizer que é exploração do trabalho infantil, mas não é, é a união da família pela subsistência, é a educação moral que os pais ensinam, pois acreditam na vitória pelo estudo e pelo trabalho. Sonham em ver seus filhos todos doutores e morando na cidade, levando uma vida bem diferente da que tem agora.

Na hora de dormir não tem beijos, mas tem uma mão estendida pedindo a benção e dois corações transbordando amor, que repetem quase como uma oração: “Deus te abençoe”.

As dez da noite todos já estão dormindo, os cachorros fazem a maior zuada para os animais que passam pelo terreiro. A lua, em seu majestoso trono, brilha esplendorosa transformando a noite negra em prateada. Um vento frio sopra, refrescando a noite quente e trazendo a esperança de chuva.

Já são cindo horas da manhã, a rotina recomeçou e aquela família de sertanejos sobreviveu a mais um dia de seca no sertão do Ceará.

Jaqueline Aragão Cordeiro.

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