A hegemonia Urbana de Fortaleza e o Governo de Martiniano de Alencar

Martiniano de Alencar

Desde o final do século XVIII, o algodão do Ceará fazia parte da agenda de produtos exportados pelo Brasil. A vila, aos poucos, foi sendo dotada de infraestrutura e serviços para atender às transações comerciais diretas com Lisboa, iniciadas em 1804. Durante o século XIX, com o avanço da indústria têxtil na Europa, aumentou consideravelmente a demanda pelo produto. A partir de meados do século XIX, a queda na produção de outros fornecedores e a Guerra da Secessão (1861-64) nos Estados Unidos, poderoso concorrente, contribuíram para expandir significativamente a indústria algodoeira cearense e para dinamizar o comércio de sua capital. O processo de hegemonia urbana de Fortaleza se iniciou, portanto, na primeira metade do século XIX e se completa na segunda metade.

A centralização do poder político e administrativo iniciada no primeiro Reinado e que marcou todo o período imperial privilegiou as capitais das províncias. Este fato e a concentração de um volume maior da produção para o comércio externo favoreceram o crescimento econômico de Fortaleza e contribuíram para que a maior parte de investimentos governamentais em edificações, infraestrutura e serviços se fixasse na capital. Na primeira gestão do cearense José Martiniano de Alencar, entre 1834 e 1837, quando implantou a Assembleia Legislativa (1835), o progresso econômico e político-administrativo do Ceará ganhou forte impulso. Em 1835, foi criado o Banco Provincial do Ceará, com capitais privados (extinto em 1851).

Alencar estimulou a construção de açudes de pedra e cal; importou o primeiro engenho a vapor da província e incentivou o cultivo e a fabricação do chá, café e açúcar. A fim de suprir a falta de braços para a lavoura, organizou uma Companhia de Trabalhadores cujos salários seriam pagos pelos próprios agricultores e mandou buscar colonos estrangeiros – trabalhadores agrícolas e especializados nos ofícios de ferreiro, pedreiro, carpina e factura de estradas. Também solicitou ao governo imperial o envio de cinco “professores dignos deste nome” para residir nas cinco primeiras localidades da Província, isto é, Fortaleza, Aracati, Icó, Crato e Sobral.

A administração de Alencar foi muito benéfica para o progresso de Fortaleza. Ele dotou a capital com iluminação a azeite; fez o reserva tório do Pajeú; construiu chafarizes, uma aguada pública para as lavadeiras de roupa, uma ponte de pedra e cal sobre o riacho do Pajeú, facilitando o acesso ao bairro da Prainha, onde se encontrava a Alfândega; abriu poços (Cacimba do Povo, próximo ao Colégio das Órfãs); mandou construir estradas “da capital para Mecejana e d’ahi para Aracati, Icó e Crato; e ainda da capital para Soure, Maranguape, Baturité, e Sobral” e fazer estudos para o melhoramento do porto. Alencar determinou a plantação de árvores de ambos os lados das estradas para sombreá-las e que nenhuma tivesse menos de 32 a 40 palmos de largura, aproximadamente 7 e 8 metros. Estas estradas, ligando as regiões produtoras de algodão e de culturas de subsistência, facilitaram o deslocamento da produção para a capital, colaborando para o desenvolvimento do seu comércio. Visando a orientar o crescimento da cidade e dar instrumentos à administração para agir legalmente e com desembaraço, Alencar aprovou a lei nº 36 de 05.10.1837, que permitia a desapropriação por utilidade Municipal e Provincial.

O botânico Freire Alemão, em 3 de maio de 1859, descreve em diário as conversas com o Sr. Franklin de Lima, quando ressalta o papel do futuro senador Alencar para o desenvolvimento da província: “Diz que a cidade era insignificante, sem estabelecimento, mas que na administração do senador Alencar tudo prosperou muito, principalmente com o estabelecimento dum banco provincial; que antes dele não havia dinheiro, era tudo miséria; que com a criação do banco apareceram edifícios e muito prosperou a cidades. Foi Alencar o que deu impulso à cultura da cana e fabrico do açúcar, etc.! (1859/1964, p. 206).”

Fonte: Fortaleza, capital do ceará: transformações no espaço urbano ao longo do seculo XIX (Maria Célia Lustosa Costa / Revista do Instituto do Ceará)
Jaqueline Aragão Cordeiro

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