A inquisição no Ceará – A inquisição, o mar e a seca

Acompanhe matéria publicada no Jornal O Povo em 23 de maio de 2010.
A presença judaica na Ibéria é antiquíssima. No livro de Salomão, há referências à presença deles na região de Tarshish, para onde iam em barcos fenícios do rei Hiram em busca de matéria-prima para construção do primeiro templo. A convivência na terra peninsular, no entanto, quase sempre foi marcada por perseguições e tragédias. Nas épocas godas, muçulmanas e da reconquista, curtas fases de paz e liberdade religiosas entremearam períodos extensos de escuridão. Apenas nos períodos godo, que antecedeu a conversão destes ao catolicismo, e no muçulmano omíada viveu-se certa tranquilidade. Nesta última fase a Espanha transformou-se no mais rico país do mundo e albergou a mais numerosa colônia judaica do planeta. Com queda dos omíadas e durante os períodos almóadas e almorávidas, e nestas mesmas fases, na área da reconquista, a luta pela vida e pela liberdade religiosa foi uma tarefa diária e extremamente árdua. Tudo culminando com decisão dos reis católicos de Espanha em não permitir mais a presença da religião judaica em seu território.

As opções eram converter-se ao catolicismo ou sair. Os que não aceitaram a conversão saíram da Espanha em 21 de agosto de 1492 (9 de av). Cerca de 300 mil judeus emigraram. Cem mil deles entram em Portugal, que somados aos hebreus autóctones passaram a representar 10% a 20% da população portuguesa. Ao entrarem em sua nova pátria pagaram tributos por cabeça e por posse em troca da promessa de liberdade religiosa. Eram os de pouca posse: artesãos, ferramenteiros, ferreiros, ourives, médicos de pouco nome e demais pequenas profissões que interessavam a Portugal.

O avô e o pai de Mestre Roque fizeram esta opção. No país luso passaram a morar em Évora, em Monxarax. Esperavam muito. Afinal a Ibéria era a terra deles há muitas e muitas gerações. A paz, no entanto, demorou muito pouco. No ano seguinte ao da expulsão da Espanha, movido por motivos políticos, e usando o furor do fanatismo religioso, iniciou-se a onda de conversões forçadas. Ao mesmo tempo era firmada a proibição de deixarem o país. Os conversos passaram a ser propriedade do estado. Em 1497 a religião judaica foi proibida em Portugal e ao lado disto todos os judeus foram conversos forçadamente. Aprisionados e sem comida e água, sobre eles foram jogados baldes de água benta.

Assim estava extinto oficialmente o judaísmo na Ibéria.

Os produtos deste ato bárbaro, os cristãos-novos, ou marranos, no entanto continuaram secretamente a prática de sua fé ancestral, até que em 1536 foi criada a Inquisição portuguesa com a finalidade principal de zelar pela prática católica daqueles, em sua maioria, conversos à força.

O avô e o pai de Mestre Roque também foram obrigados à conversão. Como a maioria do povo converso continuara secretamente na sua fé. Ao mesmo tempo, ele exercia a medicina rudimentar que aprendera com os seus. Vivia de sua profissão em Évora quando foi surpreendido e preso pelo Santo Ofício sob a alegativa que praticava a lei antiga contida no Velho Testamento. Levado ao cárcere e sob torturas sucumbe.

Confessa a fé e prática na lei mosaica, e denuncia os seus parentes e amigos. Com remorso de ter levado a desgraça a mais pessoas toma um urinol de cerâmica, sujo de fezes e urina, único objeto existente em seu cárcere, quebra-o e com seus fragmentos corta as veias e artérias de seu pescoço. Tinge de sangue rutilante judeu o chão de Portugal.

O mal, no entanto, já estava feito. Nos últimos depoimentos Mestre Roque havia dito que seu irmão Fernão Lopes acreditava no Velho Testamento. Este era alfaiate do Duque de Bragança. Isto nada lhe valeu de proteção no Santo Ofício. Preso, confesso e renitente, terminou sendo queimado vivo pela Santa Inquisição.

A esta altura, o que restava da família, que estava fora do cárcere, em polvorosa fugiu de Portugal. A mulher de Fernão Lopes, Branca Rodrigues, uma irmã dela, Violante e seu marido, juntamente com os filhos de ambas as irmãs fugiram para a Bahia. Cá estavam e em paz em 1591 quando chega o visitador do aparelho inquisitorial, que pela primeira vez na Bahia faria uma devassa terrível nos costumes então relativamente livres da capitania, cujo objeto maior era verificar a prática do catolicismo por parte dos judeus conversos e seus descendentes. Na Bahia chovem denúncias da prática religiosa da família. Afirmavam inclusive que possuíam Sinagoga em sua residência. O destino mais uma vez fechava as portas para eles.

Beatriz Mendes, uma filha de Fernão Lopes, o executado, e de Branca Rodrigues, já então casada com Francisco Mendes Leão, temerosa refugia-se com o marido, em Pernambuco. Não sabiam o destino do visitador. Este, terminada a devassa na Bahia, vai imediatamente a Pernambuco, com mesma finalidade, onde chega em 1593. A primeira denúncia feita ao inquisidor em 24 de outubro de 1593 é exatamente contra o casal fugitivo, e por judaização. Sabedores da denúncia, eles novamente fogem. Abandonaram Pernambuco. Deixam, no entanto, uma filha.

Isabel Mendes, a filha do casal fujão, ficou em Pernambuco, porque já então era casada e com cristão-velho, coisa que lhe dava certa proteção. O marido era Pero Cardiga Lobato, que nascera em Sardoal em 1534. Depois passou a Pernambuco onde em 1593 era capitão de ordenanças de Olinda e rico senhor de dois engenhos, um na Várzea e outro no Jaboatão. A mulher Isabel escapa do Santo Ofício, mas Pero Cardiga não consegue fazê-lo. Possuidor de um pavio curtíssimo e de uma língua bem solta foi denunciado, processado por blasfêmia e julgado pelo Santo Ofício em Olinda. O ato final ocorreu em 16 de julho de 1594. Foi penalizado com repreensão sigilosa e pagamento de custas processuais de 100 cruzados.

É bom falar-se aqui que, apesar de se dizer que tribunais do Santo Ofício só existiram em Portugal (5) e Goa, o processo do velho Pero Cardiga é prova inconteste que existiram em outras paragens, inclusive aqui em Olinda. O cristão-velho Pero Cardiga e a marrana Isabel Mendes tiveram vasta descendência. Dois de seus filhos são objetos de nossa citação: Felipa e Tomázia Cardiga.

Felipa Cardiga foi a mulher de Frutuoso Barbosa que, apesar de apresentado como cristão-velho, não era exatamente isto, pois oitavo neto do judeu Ruy Capão, fato que não lhe impediu de ser Cavaleiro da Ordem de Cristo. Ele chegou a Pernambuco ainda novo e embrenhou-se na Paraíba ainda virgem à procura de pau-brasil. Fez grandes cabedais nesta atividade. Rico, voltou a Lisboa onde reivindica o arrendamento da Paraíba, capitania real. Conseguiu-o em 25 de janeiro de 1579 pelo prazo de dez anos, com investimento total às suas expensas. Obteve para tal o título de primeiro capitão-mor governador da dita capitania e um salário anual de 200$000. Armou navios, contratou mão-de-obra, adquiriu ferramentas e armas e partiu para Paraíba. A pressa era tão grande de chegar ao seu destino que, tocando primeiro em Pernambuco, atracam os navios ao largo, para um reabastecimento rápido, e resolvem pernoitar nos navios sem descer. Nesta mesma noite, uma monstruosa tempestade abate-se sobre a costa pernambucana, arranca os barcos das amarras e joga-os aos mares sem destino. O navio em que se encontrava Frutuoso Barbosa veio dar no Caribe, onde falece sua primeira mulher Maria Jacques. Viúvo e pobre, volta a Portugal para novamente reivindicar a Paraíba, agora governada por João Tavares. Foi assim que ele em 1587 passou a ser o segundo capitão-mor governador da Paraíba.

Em Pernambuco havia casado com Felipa Cardiga, a judaizante. Deixaram enorme descendência. Entre eles os primevos Barbosas no Nordeste, e em Portugal. Entre os últimos citam-se os Viscondes de Montalegre. Uma irmã de Felipa Cardiga, Tomázia, também filha de Pedro Cardiga e da judaizante Isabel Mendes, morou na Paraíba onde vivia casada com Pero Coelho de Souza, que era, segundo o Barão de Studart, açoriano. Em 1603 Pero Coelho de Souza resolve tentar a conquista da Ibiapaba, então defendida por nativos hostis secundados e auxiliados por franceses.

Recebeu ele para tal missão o título de capitão-mor. Mandou por mar três barcos com mantimentos e munições em direção ao rio Jaguaribe, onde deveriam se encontrar com os que iam por terra, chefiados por ele próprio, que seguiu com 65 soldados, entre os quais Martim Soares Moreno, e ainda 200 índios flecheiros. Encontraram-se no rio Jaguaribe, daí seguiram para Camocim e, em seguida, à Ibiapaba, onde venceram os nativos e aprisionaram os franceses. Segundo Barão de Studart, desejava ele seguir ao Maranhão então dominado pelos franceses. Uma rebelião entre os seus o obrigou, no entanto, a retornar.

Em 1605 Pero Coelho de Souza, acompanhado da mulher, a marrana Tomázia, e filhos, parte novamente para o Ceará, desta vez em uma caravela. Aqui chegando, sofrendo a deserção dos seus soldados, enfrentando forte oposição nativa e, diante de uma seca terrível, empreende uma terrível retirada a pé, em busca da Paraíba. Além da família acompanham-no 16 soldados e o índio Gonçalo. A travessia da infeliz caravana foi por demais dramática. Desesperados e atingidos pela fome e sede, viram um a um irem-se sem vida os companheiros. Dos cinco filhos do capitão-mor, pelo menos dois, entre eles o mais velho de 18 anos, faleceram de fome e sede. Finalmente, esqueléticos, chegam ao Rio Grande, onde Tomázia não conseguindo resistir aos sofrimentos do corpo e da alma falece.

Cumpre-se assim em Tomázia o destino dos seus desde a Ibéria até o Ceará.

Cândido Pinheiro Koren de Lima é médico e pesquisador da cultura judaica no Nordeste.

Jaqueline Aragão Cordeiro

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