A iquisição no Ceará – Dez anos nas galés

A espionagem sobre a vida privada de cearenses ou portugueses que sentaram praça no Ceará não levou ninguém à fogueira. Mas entre os castigos impostos pela Igreja Católica, o degredo e o confinamento nas galés lusitanas que cruzavam o Atlântico e outros mares entre 1752-1802, marcaram a violenta história da Inquisição. De 19 perseguidos, seis homens amargaram os serviços forçados nas caravelas do reino de Portugal. Entre eles, dois idosos de 60 anos.

Um dos processos, investigados pelo O POVO na Torre do Tombo em Lisboa, revela que o escravo Domingos da Silva de Oliveira foi o que mais tempo ficou à mercê do insalubre castigo nas galés. Foram dez anos preso em uma caravela. Mais novo entre os condenados daqui, Domingos tinha 30 anos de idade e acabou dedurado ao Santo Ofício por crime de sacrilégio.

O negro, de propriedade de capitão-mor Bento da Silva de Oliveira, morador do Icó, antes do degredo no mar foi açoitado publicamente, teve de pagar penitências espirituais e foi obrigado a receber instrução católica para sará-lo do pecado.

Por bigamia, os inquisidores condenaram também às galés o pastor de animais Francisco Barbosa, 60, Manuel Ferreira de Morais, 60, António Tavares de Sousa, 38, António Mendes da Cunha, 40, e Manuel Fragoso de Albuquerque, 40. Os cinco foram capturados e levados para Lisboa. Além de serem torturados em praça pública durante os autos-de-fé, foram obrigados a remar feito cativos durante cinco anos nos porões dos navios reais.

Manuel Fragoso de Albuquerque, 40, habitante do Icó e natural do Cariri Novo, hoje Crato, teria sido entre os sentenciados o primeiro a ser preso e condenado pelo Tribunal católica do Santo Ofício. Foi preso em outubro de 1752 e sua sentença foi lida em 29 de maio de 1754. Fragoso pecou contra a lei de Deus ao se casar com duas mulheres sem ter enviuvado da primeira. No segundo casamento, uniu-se a Francisca Rodrigues da Silva.

A idade não era atenuante para os julgadores do Tribunal da Santa Fé em Lisboa. Dos Inhamuns, na localidade de Várge da Vaca, atual Campos Sales (que hoje é município da região do Cariri), os familiares da Inquisição & espiões do Santo Ofício nos sertões -, denunciaram o idoso Félix José da Silva Gaia, 70, por falso sacerdócio jesuíta. Nos documentos da Torre do Tombo há a indicação de condenação, mas não há registro detalhado sobre a pena imposta.

Entre os 19 sentenciados no Ceará, uma mulher. A ré Francisca Rodrigues de Sá, 32, vivia na Serra da Beruoca, hoje Meruoca (região norte do Ceará), entrou no rol dos culpados da Inquisição de Lisboa por crime de sacrilégio. Destruído pelo tempo, o processo não informa sobre a sentença da prisioneira que morreu durante o andar do processo.

Segundo pesquisas do historiador Otaviano Vieira Jr., autor do livro A Inquisição e o Sertão e professor da Universidade Federal do Pará (ler entrevista página 12), entre 1750-1821 foram encontrados 47 nomes de denunciados no Ceará segundo o caderno 328 do promotor. Desses, nove foram processados pelo Tribunal do Santo Ofício de Lisboa. (Colaboraram Cláudio Ribeiro e Luiz Henrique Campos)

Acompanhe matéria publicada no Jornal O povo em 23 de maio de 2010.
Jaqueline Aragão Cordeiro

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