Frei Tito

No dia 14 de setembro de 1945, nasce em fortaleza Tito de Alencar Lima. Seus pais não tinham a menor ideia do que que a vida havia reservado para o filho. Mas o tempo revelou uma infância e uma juventude felizes. E foi mostrando seu espírito de liderança, principalmente a partir de seu ingresso na Juventude Estudantil Católica, no final dos anos 50. Com 20 anos, quando inicia seus estudos no Convento da Serra, em Belo Horizonte, resolve realizar o sonho de ser frade. A partir dali, ajuda e escrever não só a história de vida, mas parte da história deste país. Frei Tito iria se transformar em um mártir pela luta dos direitos humanos no Brasil, mas terminaria vítima da violência instalada nos porões da ditadura que ajudou a combater.

Parte desta história pode ser encontrada no memorial Frei Tito, no Museu do Ceará. O espaço abriga desde documentos, como a certidão de Nascimento de Tito, até os últimos óculos que usou. Também fazem parte do acervo a máquina de escrever e o rosário, que foram fiéis companheiros do frei por bastante tempo. Ainda estão no acervo muitas correspondências do frei Tito, incluindo a famosa carta escrita na prisão, descrevendo as torturas sofridas, e que terminou ganhando o mundo como prova das torturas praticadas contra os presos políticos brasileiros.

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Frei Tito foi preso pela primeira vez pelas forças da ditadura em 1968, por estar participando de um congresso clandestino da união Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, interior de São Paulo. Ficou fichado pela Polícia e tornou-se, de modo mais explícito, alvo da repressão militar, que pouco a pouco alargava seu poder de atuação. Depois de se livrar da prisão, Tito continuou na sua rotina de membro da Ordem dos Pregadores, pensando sobre as implicações do caminho que havia escolhido e na busca de mais coragem para segui-lo. O tempo passava e sua opção exigia mais engajamento e muito mais cuidado com o que fazia.

Carteira Profissional em exposição no Museu do Ceará

Mas frei Tito não conseguiu impedir que a equipe do delegado Fleury, uma das mais aterrorizantes figuras da repressão militar no período, invadisse o convento dos dominicanos, em novembro de 1969. Acabou preso, acusado de particpar da organização do encontro clandestino da UNE, realizado no ano anterior. No início de 1970, o frei cearense foi torturado nos porões da ditadura. Na tentativa de denunciar a violência praticada nas prisões do regime militar, e movido por uma grande coragem, Tito escreveu a famosa carta-denúncia, que seria reproduzida em diversos países.

A carta chocou o mundo. Nela, Tito descreveu as torturas sofridas e assegurou que no País estava criando-se uma máquina de triturar homens e mulheres. em pouco tempo, o documento transformou-se em símbolo na luta pelos direito humanos. Tito só iria sair da prisão em 1971, junto com outros 69 presos que foram trocados pela liberdade do embaixador da Suíça, Giovani Enrico Bücher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária.

Título de eleitor em exposição no Museu do Ceará

Antes de embarcar para o Chile, Tito escreveu para um companheiro do presídio: “…reuniremos os grandes ideais que o futuro do povo brasileiro tanto anseia: a construção do socialismo. E só os verdadeiros homens é que foram chamados para este ideal. Contra isso, nada vence. Nem tortura, nem perseguições…”.

Depois de passar alguns meses no Chile, sob ameaça de ser novamente perseguido, frei Tito embarcou para a Itália. em Roma, não encontrou acolhimento, pois era considerado um “frade terrorista”. Seguiu então para Paris. Lá, encontrou o tão esperado refúgio. Apesar de bem acolhido pelos dominicanos, a angústia continuou. Mesmo em terra estrangeira, sentia-se perseguido. Ouvia vozes do delegado Fleury e imaginava o risco de novas torturas. O risco de alguém de sua família cair nas garras da repressão também causava assombro em frei Tito, o que o fez partir para um tratamento psiquiátrico.

O estado de frei melhorava e piorava até que, no dia 10 de agosto de 1974, um morador de Lyon encontrou seu corpo suspenso por uma corda, à sombra de álamo. A imagem sugeria um suicídio. E deixou uma certeza: sua morte foi causada pelas torturas que sofreu nas prisões da ditadura. Em seu túmulo, na França, estava escrito: “Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado…até a morte, por ter proclamado o Evangelho, lutando por libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira”.

O corpo de Frei Tito veio para o Brasil em 1983. Antes de chegar a Fortaleza passou por São Paulo, onde foi realizada, no mesmo dia 25 de março, uma celebração litúrgica em sua memória e pela memória de Alexandre Vannucchi. Mais de 4 mil pessoas assistiram à missa. No túmulo em sua terra, a legenda que dizia “Tito descansa nesta terra estrangeira” mudou para “Tito hoje descansa junto ao seu povo”.

2016

“Ao Frei Tito e todos os bravos que lutaram e morreram pela liberdade desse país, nossas orações e mais sincera admiração.”

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Imagens: Arquivo pessoal
Jaqueline Aragão Cordeiro

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