A Sedição de Juazeiro e a tomada do Crato

Enquanto acontecia a sedição em Juazeiro contra a “Política das Salvações” (criada durante o governo de Hermes da Fonseca), o clima de rebelião se apoderava dos cratenses. Um capitão chamado Ladislau, homem insensato e mau, delegado de polícia e comandante da 4ª Cia. do 2º Batalhão Estadual, sediada no Crato, praticou inúmeros desatinos no intuito de amedrontar os revoltosos. Os dias passavam sem notícias de Juazeiro, os adeptos de Franco Rabelo gritavam nas ruas do Crato, em comícios, em boletins (jornais), à destruição da “Raça maldita dos romeiros”.

A cidade ficou em estado de sítio, e depois das 18 horas ninguém saia ou entrava sem a autorização do Cap. Ladislau. Mandou que seus soldados afiassem suas espadas para degolar os jagunços juazeirenses de Floro Bartolomeu. Não era grande o temor dos cratenses, pois confiavam no poder do governo, que embarcou todo o batalhão de polícia e do qual se comentava, dispunha de canhões e metralhadoras. No dia 18 de dezembro pela manhã, entrava no Crato, a tropa, não traziam canhões nem metralhadoras e não contava com mais de 500 homens.

Ficaram na cidade aguardando as ordens do governo, onde se concentravam todos os recursos, cerca de 800 a 1000 soldados, número suficiente para derrotar os juazeirenses, em menor número, sem experiência em batalhas e sem armas suficientes. Mas o batalhão, que chegara dia 18, passou quase todo o dia 19 em formação, sob o sol escaldante do sertão. Dia 20, por volta das 10 horas, seguiram para o combate. Ainda cansados da longa viagem de 28 léguas feitas a pé, além da falta de descanso no Crato, o grupo parecia incapaz de um esforço sério e prolongado.

Supondo o Comandante que a batalha seria fácil e rápida, pois julgava ser apenas uma rebelião de jagunços despreparados, tal foi sua surpresa ao chegar em Juazeiro a ver a cidade cercada por uma enorme vala, impossível de transpor para entrar na Vila. O tiroteio começou, mas era inútil para a tropa governista, a barricada que blindava Juazeiro era um escudo para os jagunços e romeiros, enquanto os soldados se abrigavam das balas atrás de árvores e pedras. Por volta das 15 horas começaram a chegar de volta ao Crato, os soldados desgarrados e por volta de 8 e meia da noite, retornaram todos. Decidiu então o Comandante, pedir ajuda a Fortaleza e Pernambuco, ficando no aguardo de mais homens, canhões e metralhadoras, agora, já não menosprezava mais a força rebelde.

Os civis voluntários chamados “Patriotas” eram tratados com muito rigor pelo exercito, tanto que no dia 20 de dezembro restaram apenas 5 ou 6. Continuavam as tropas no Crato e a demora do auxílio ia abatendo os ânimos. As famílias fugiam com medo dos juazeirenses, pois espalharam boatos que eram demasiados violentos.

Quase diariamente chegavam reforços de patriotas e armas, mas todas as noites desertavam inúmeros soldados e patriotas, de modo que o batalhão em quase nada crescia, e o Comandante, Cel. Alipio de Barros, substituto de Ladislau depois do primeiro fracasso, não ousava mais uma nova investida sem a real chance de vitória. A falta de confiança da tropa, a intolerância com os opositores de Rabelo, a falência do comércio e as mortes nas estradas, tornaram impossível a vida na vila do Crato, apenas os soldados e pouquíssimas famílias permaneciam lá.

Partiram para a segunda investida. Na madrugada do dia 16 de janeiro, seguiram as tropas do Crato para Juazeiro sob um rigoroso inverno. O ataque durou até o dia 23, e pela manhã, novamente se retirou a tropa governista derrotada, em grande número, para Barbalha, e outro pequeno grupo de volta ao Crato, em estado deplorável. Temendo uma ofensiva dos juazeirenses, fugiram mais moradores e a maior cidade da região tornou-se

Por volta das 14 horas do dia 24, chegou um portador avisando que a estrada estava “coalhada” de romeiros, mas o comandante não lhe deu ouvidos, ao contrário, ameaçou o pobre coitado acusando-o de dar tal notícia mentirosa para assustá-los, então, para escapar das ameaças, fugiu apavorado. Às 15 horas mais ou menos, começaram a ouvir os tiros, o pavor tomou conta das pessoas que corriam e se escondiam desordenadamente. A batalha foi ferrenha e durou até a tardinha, ouvia-se disparos dos quatro cantos da cidade, porém, observava-se que o norte e o nascente eram os lugares mais atacados, e que o poente e o sul ficaram mais livres. Soube-se depois que foi a orientação que receberam para dar oportunidade de fuga a quem assim o desejasse, como realmente aconteceu.

Ao final, tamanha foi a surpresa dos que restaram na cidade, ao ouvirem os romeiros cantando e fazendo orações a Virgem Maria no meio de todo aquele tiroteio. Na manhã do dia 25, a munição dos romeiros já estava no fim e as balas que vieram de Juazeiro, como reforço, não foram suficientes, mas um negociante da cidade deu aos romeiros alguns pacotes de balas, com as quais conquistaram a praça. Por volta das 10 horas, findava o combate e não houve perseguição aos vencidos. Logo as ruas foram invadidas por um grande número de homens sujos e maltrapilhos, conduzindo apenas foices, facões e paus, e essa gente, de quem tão mal se falava, não causaram nenhum dano a quem quer que fosse, a única atitude que tomaram foi se apoderarem das armas e alimentos, deixando nas residências todos os bens ali encontrados. Outros mais chegaram, e vendo as casas abertas, desobedeceram as ordens de Padre Cícero e saquearam tudo que encontraram.

Fonte: A tomada do Crato (Des. Carlos Livino de Carvalho)
Jaqueline Aragão Cordeiro

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