As Benzedeiras ou Rezadeiras

O ritual se reveste de mistérios. Símbolos sagrados, rezas, rosários, sal, água benta, cordão e nomes de santos envolvem o solo sagrado da casa das rezadeiras. Nos remete às divindades protetoras de origem africana, indígena e europeia. Imagens de santos espalhadas pelas paredes mostram o sincretismo religioso.

Mãos ágeis sustentam ramos verdes e pequenos. Traçam no ar cruzes sobre a cabeça do doente. Tecem um fio invisível, poderoso, unindo as dores dos homens, mazelas sem fim à magia do benzimento. Ramos murcham, absorvem o espírito da doença. As orações invocam a santíssima trindade, não permitem cruzar pés e mãos para não invalidar a oração.

O elo mítico poderoso funde-se a voz sussurrada da rezadeira. A cadeia simbólica e imagética presente no verbo invade o ambiente. O poder da cura configura-se. As sessões sagradas das benzedeiras ao raiar do sol ou ao crepúsculo, oferecem um quê de lealdade ao deus Tupã, para aplacar, quem sabe, as forças invisíveis da natureza aos moldes de Ossaim, o orixá que detém o poder purgativo das plantas.

Tão remoto quanto a origem do homem, os rituais sagrados pagãos, objetos de estudo, teses e pesquisas ao longo da era racionalista dão conta de uma tradição mitológica praticada nas tribos primitivas.

A despeito de serem as deusas fadas-mães guardiãs dos elementos femininos das manifestações do mundo sensível, da essência espiritual, retirando o humano dos limites factuais, a figura das rezadeiras funciona como um código conectivo que agrega toda a riqueza espiritual presente na vida de uma gente despida de bens materiais, mas que expressam em suas diversas manifestações religiosas procissões de símbolos sagrados para conter a fúria implacável dos males terrenos.

No Nordeste brasileiro, sobretudo, no Ceará, são bastante comuns. Em meio à placidez luminosa do sertão, adornada pela fúria da Caatinga, há mulheres portadoras da chamada sabedoria popular, cujos reflexos se fazem presentes nas rugas dos rostos e na calma fulgente. Elas entoam rezas ancestrais que, para os sertanejos, curaram os malefícios físicos e espirituais.

Conhecida pela designação de “Rezadeiras”, elas realizam seu ritual a todo o momento e para quem precisar, inclusive, para pessoas de alto poder aquisitivo. Como que munidas de uma força numinosa, promovem ato de solenidade de mais alto valor, no qual, numa simbiose, a natureza terrestre se associa à celestial. Logo, perpassam em preces o alento necessário que sanará o doente. Com galho de peão-roxo ou de vassourinha, expurgam as enfermidades do corpo humano.

Usando um ramo na mão para soltar o mau no vento, as benzedeiras benzem quem está necessitando, com uma oração simples e forte, rogam a Deus pela cura do doente: “Deus é pai de Jesus / Jesus é pai do divino Espírito Santo/ com o poder de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito/ afasta todos os males desse corpo/ Amém”.

“Pelo ramo verde será afastado sete maus, sete dores e sete mau olhado do corpo de fulano de tal”. Com um rosário e um galho de erva na mão que pode ser de aroeira, arruda ou vassourinha, a Rezadeira recita essa oração em cima da pessoa até a erva murchar. Quando a erva murcha, significa que o malefício foi debelado.

O trabalho delas é tão importante que até os profissionais mais letrados reconhecem seu ofício, utilizando-o nos postos de saúde. O poder de cura delas vai além do que é tido como racional. Simples frases proferidas com fé e esperança, atenuam os sofrimentos, aliviam as almas e reconstroem os ânimos.

Essas rezas abrangem as mais variadas necessidades, podendo solucionar conflitos familiares, chamar pessoas de volta à responsabilidade, acabar com o poder maléfico de um ambiente, e outros problemas que contribuem para a credibilidade da rezadeira, como a cura do mau-olhado, quebranto, espinhela caída, cobreiro, febre, tristeza, míngua, ar na cabeça, erisipela, dores em geral e outras doenças que muitas vezes variam de nome de acordo com a cultura local.

Por serem consideradas portadoras de um dom divino especial, as rezadeiras não costumam cobrar por seus serviços, mesmo porque em geral os usuários desses serviços são pessoas de baixa renda ou com renda mínima e com dificuldades de acesso a serviços formais de saúde.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste / Fundação Joaquim Nabuco / UOL / Extra
Jaqueline Aragão Cordeiro

COISA DE CEARENSE

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