José Leão e Pataca

PINTURA DE RUGENDAS

Manuel da Cunha Pereira era proprietário da fazenda Senhorial do Boqueirão, na margem esquerda do rio Jaguaribe. Seus antecedentes se estabeleceram no Jaguaribe no final do século XVII, vindos de Pernambuco. Eram descendentes dos Barbosa Cordeiro e dos Cunhas, de nobre genealogia. Na região não se davam conta da descendência nobre dos Cunhas Pereira e os rotulavam, desde o final do século XVIII, simplesmente como os “Cunhas do Boqueirão”, respeitando, porém, seu prestígio e sua força. Manuel da Cunha Pereira, tornara-se no começo do século XIX, um dos homens mais poderosos do Jaguaribe, acostumado a fazer justiça com as próprias mãos.

Manuel da Cunha Pereira ficou viúvo e casou novamente com Joana Sebastiana da Rocha, com quem teve dois filhos: Sabino da Cunha Pereira, moço de gênio terrível, soberbo e ostentoso, e Salvador de Locio Sblitz Cunha, perversamente engraçado e sucessor das zombarias de seu pai. Falecido Manoel, a viúva Joana Sebastiana casou com o Cap. Joaquim Manoel da Cunha, neto de seu falecido marido. Essa união causou escândalo na comunidade e a revolta de seus filhos. Por duas vezes, Sabino tentou matar o padrasto, com veneno e a tiros, mas não teve êxito. Pela tentativa de homicídio, o presidente Martiniano de Alencar mandou prendê-lo.

Sovela

Sabino foi solto em 1839, quando Joaquim Manoel da Cunha foi assassinado com uma sovela cravada em seu coração, enquanto dormia durante a noite, no alpendre da fazenda Barrinha. O crime foi atribuído aos “Cunhas do Boqueirão”, e os parentes da vítima se prepararam para a vingança. O cunhado de Joaquim Manoel, Francisco José de Santana, vulgo “Pataca”, assumiu a liderança dessa empreitada, pois já tinha inimizade com José Leão, por atribuir a ele, ter ordenado o Major Ângelo do Gado Brabo a matar seu irmão, o violento Ten. Cel. “Quixabeira”. As ameaças recíprocas levaram ambos a pedir garantias ao governo, que nada fez. Enquanto Pataca recrutava criminosos para seu serviço no Rio Grande do Norte e na Paraíba, Sabino da Cunha se desmandava em insultos aos seus inimigos.

Depois de uma fracassada tentativa de assassinar Sabino, Pataca ficou de tocaia numa ilhota do Jaguaribe, de onde vigiava a fazenda do Boqueirão. Estava acompanhado de seus cunhados Manuel de Holanda da Cunha e José Francisco da Cunha, dois assassinos famosos, além de outros capangas igualmente perigosos. O Cel. Inacio Ribeiro Bessa notou a movimentação e mandou avisar ao amigo José Leão.

José Leão da Cunha Pereira era filho do primeiro casamento do velho Manuel da Cunha pereira, era Ten. Cel. da cavalaria e lutou ao lado de Tristão Gonçalves e de Pereira Filgueiras contra Fidié, na época da independência, destacou-se por causa da ferocidade com que lutava. Essa parceria acabou durante a confederação do Equador, quando Tristão convocou Manoel da Cunha para participar da revolução, este recusou-se a acompanhá-lo e teve seus vaqueiros espancados e a fazenda saqueada. A partir de então, José Leão passou a perseguir Tristão para vingar-se do que fizera ao seu velho pai. Quando Tristão foi emboscado pelas forças imperiais, ele estava lá, o atacou pela retaguarda e o derrotou. Na fuga, Tristão foi morto por um de seus soldados. Esse fato ocasionou a inimizade do Gov. Martiniano de Alencar com José Leão.

José Leão chegou na fazenda do Boqueirão no dia 17 de junho de 1840, na parte da tarde. A noite, Pataca e seu bando cercaram a fazenda e houve troca de tiros. Os cangaceiros não deixaram ninguém dormir, dando tiros e gritando insultos e ameaças durante toda a noite. Para resistir ao ataque, Sabino contava apenas com o irmão José Leão, o mensageiro do Cel. Bessa, três seguranças e um sobrinho de 17 anos, Firmino, filho mais velho de José Leão. Ao todo, eram 7 homens contra 14. A única defesa dos sitiados era a casa, mas os bandidos conseguiram derrubar a porta, fazendo com que Sabino e os outros corressem e se trancassem num quarto, onde guardavam uma mala de pólvora.

José Leão correu e foi esconder-se na estribaria. Os capangas de Pataca desmancharam a cerca dos currais, amontoaram a madeira na porta do quarto onde o grupo se defendia a tiros, e tocaram fogo. Nenhum conseguiu sair da casa em chamas, o calor era insuportável e a fumaça os asfixiava. Por voltas das  seis horas da manhã, se ouviu um violento estrondo e grandes labaredas precipitaram-se no meio do incêndio, era a mala de pólvora que fazia tudo ir pelos ares. Os cadáveres encontrados mais tarde, estavam irreconhecíveis, só se identificou Sabino, por causa do anel de brilhantes que tinha no dedo.

Os cangaceiros acuaram José Leão que se defendia como uma fera, usaram d. Maria Gomes, sua esposa, que mantinham prisioneira, como escudo, dessa forma, ele não podia atirar. Manoel de Holanda e José Francisco da Cunha atingiu-lhe com dois tiros, José Leão cai ferido e o cangaceiro “Cabaceira” o sangrou na carótida. A pobre viúva e os dois filhos menores ficam chorando ao lado do cadáver, enquanto os bandidos saqueavam a propriedade, roubado tudo que podiam carregar.

Os vizinhos e amigos de José Leão, alertados pelo clarão do correram em seu socorro, mas já era tarde, os bandidos se puseram em fuga e um dos amigos de José Leão, Francisco Galuxo, os perseguiu atirando, mas conseguiu apenas, balear um dos retardatários. Foi aberto processo na delegacia de Russas, e no dia 29 de agosto de 1842, o cangaceiro “Beira D’água”, contou detalhes dessa trágica história, contou inclusive, que roubaram até a camisa que o falecido vestia quando foi morto.

Fonte: A margem da história do Ceará, Gustavo Barroso, 1962 / Ceará, homens e fatos, João Brígido
Jaqueline Aragão Cordeiro

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